Individualidade sem negação

Esqueça a baboseira da independência total e do não precisar de ninguém. É tolice desumanizante. E esqueça a suposta relação entre individualização (individuação?) e frieza, distância, invulnerabilidade afetiva – a negação do outro.

Individualidade não é pensar só em si. Não, não é. Isso egoísmo.

Individualidade é nunca esquecer de si, ao estar sozinho e, talvez principalmente, quando em relação com o outro. É lembrar de si, saber-se, também nos momentos em que a situação exigir lidar com divergências de opinião, gostos, atitudes. Inclusive na hora de, quando for o caso, abrir mão de alguma coisa na busca de um entendimento.

Sim, é possível ceder e manter íntegra sua individualidade. É talvez fundamental fazê-lo. Porque, sabe, há a individualidade do outro, e quando não há diferenças, não há individualização, mas fusão.

E na fusão as individualidades não dançam, porque se dissolvem uma na outra. É, pois, no que são diferentes que as individualidades se fortalecem. E, se forem não só fortes, mas inflexíveis, a relação acabará, impedindo outro momento de fusão – de ampliação.

Portanto, sem a individualidade do outro, a sua não existe, ou será menos ampla. É por isso que é preciso respeitá-la (e não só exigir que respeitem a sua).

De novo, lembre-se: individualidade não é pensar só em si e querer tudo do seu jeito. Individualidade é nunca esquecer de si ao buscar um jeito que funcione para os dois – você e o outro.

O que pode significar, algumas vezes (não todas, e esse é o segredo), concordar, adaptar-se, ceder, recuar – para ambos.

E não há vergonha nenhuma nisso.

Nem – se sua individualidade estiver em desenvolvimento mesmo – perigo.

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