A ganância é chata

Não tenho problema com a ideia de ganhar dinheiro. Sou publicitário demais, realista demais, calejado demais com teorias sociológico-políticas fantasiosas para engolir a noção de um mundo sem finanças.

O problema está em dedicar a vida a isso. Não parte de vida, mas a vida toda mesmo. Tudo de alguém. Tudo de alguma coisa. Identificar um caminho ou método que gera grana e ficar preso a isso, repetindo-se, repetindo-se, tentanto perpetuar por segurança o que um dia foi uma descoberta.

Pessoas e empresas fazem isso: reprisam artifícios e expedientes, fazendo força ou questão de ignorar todos os fatos, as vontades e os direitos que se interpõem no desejado círculo de perpetuação de sua riqueza. Com isso, além de francamente atropelarem pessoas e necessidades legítimas – algo em si já muito grave – tornam-se chatas.

Você sabe o que o call center daquela empresa vai falar, sabe o porquê e sabe que não tem escapatória. Você sabe que aquela promoção da loja ou do prestador de serviço é uma arapuca armada para o futuro, ou uma revelação involuntária de lucro indecente, mas não tem enegia ou tempo para fazer algo a respeito. Ou atá já fez, e não adiantou nada.

Você sabe que aquela pessoa só quer ganhar mais, e muito – e só para ela, e do pior jeito – ou que ela é capaz de fazer coisas odiosas para se sentir superior, mas não consegue ignorá-la, evitar que ela cruze o seu caminho ou induzi-la a agir de outro modo. Além da opressão e da injustiça, quando essa pessoa tem poder, seu modus operandi, sempre o mesmo, sempre movido pelas mesmas coisas, quase mata você de tédio.

Talvez todos nós façamos essas coisas em algum momento. Talvez movidos por medos legítimos. Mas quem adota essas atitudes com extremismo e alto nível de inconsciência semeia na realidade não só a violação de direitos, mas também o mecanicismo comportamental que esvazia o cotidiano e desmotiva mudanças para melhor, descolorindo a vida. A primeira coisa é crime. A segunda, tem de ser pecado.

Organizações fazem isso. Pessoas fazem isso. A indústria cultural faz isso: o cinema, a TV, as “grifes” de música. Assim também o faz a publicidade.

E isso tem sido mortal para ela, e também para mim.

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