Biográfica desilusão

Como pode um mestre da música, um semideus da poesia, acreditar e defender que sua vida privada não tem nada a ver com sua obra pública, sua produção artística? Como dissociar essas duas dimensões, se têm o mesmo indivíduo como fonte? Como entender profundamente Rodin sem Camille Claudel, Frida Khalo sem Diego Rivera, Picasso sem seus amores?

Como compreender que baluartes da liberdade, defensores da tolerância, inspiradores da democracia, esgrimem seus desejos particulares de privacidade, seu incômodo (mesmo um possível constrangimento), contra um direito coletivo?

Ser democrático é conviver também, talvez principalmente, com o que aborrece, inquieta, irrita. É não defender a extinção de um direito quando alguém recorre a ele de forma abusiva, escandalosa, nociva. Combata-se o caso, preserve-se o direito. Porque ele será dado a, ou tirado de, todos.

Detalhes de alcova e julgamentos moralistas não me interessam. Assim como o sensacionalismo das revistas de fofoca. Não gosto delas, chegam a me deixar meio deprimido de tanta frivolidade. Mas a pior solução possível é proibir que existam. É vociferar clamando seu fim compulsório, como aquele ator que não consigo achar mais engraçado, e que todos consideram coberto de fúria santa porque “luta” para não virar pauta quando leva seu filho à escola. Compreendo-o, mas não o apoio. Não percebo tal fúria como santa, nem adequada – sua virulência é mais assustadora que a fome dos paparazzi.

O mesmo vale para as biografias. Todas elas. Que tal “combater” liberdade de expressão com liberdade de expressão? Contra a mal aplicada, a esclarecida. A versão do retratado, contradizendo o retratista, certamente teria muita força no caso de uma celebridade. Dar a própria versão, ou exigir uma retratação quando houver algo indiscutivelmente “errado”, tem de ser suficiente para que se mantenha o ambiente democrático. Sufocar previamente a versão do outro é tolher a liberdade, sim, em qualquer caso.

Uma democracia bem desenvolvida só existe sem maniqueísmos, nem respostas fáceis. Acho uma decisão da Suprema Corte norte-americana, que vi noticiada uma vez, exemplar: numa questão de segredo de Estado, este tem o direito de esconder, a imprensa de publicar (se for capaz de descobrir; porque, se descoberto foi, é fato e pode ser notícia).

Para falar de um caso, não acho que o tal “rei” tenha direito de impedir, pela força, que seu público “saiba” (quem não sabe?) do acidente que lhe aconteceu. Muito menos de vetar comentários sobre a roupa que usava quando jovem. A doçura de suas canções não se transmuta em nenhuma generosidade como cidadão? A generosidade de não estimular um retrocesso para não se sentir incomodado?

E os direitos da obra? Absurdo querer obrigar a dividir os direitos da obra, argumentando que é “uma extensão do trabalho do artista”. A biografia é trabalho do biógrafo, sobre alguém que está no mundo, e de um jeito ou de outro tem influência pública. Não sei se existir dá direito a royalties. Mas cabe uma questão em que ninguém pensou: se a biografia aumentar a exposição do biografado, a venda de álbuns, a bilheteria em shows, também estes serão divididos com o biógrafo?

Ser democrático não é bombardear direitos quando eles bagunçam seu quintal. E não dá garantia de conforto para todos, o tempo todo (muitas vezes, é o contrário). Se é de informação que se está falando, de exposição pública – de pessoas que escolheram uma atividade com exposição pública – entre a privacidade e a expressão livre, não tenho dúvidas: suporte-se certo sofrimento em nome da liberdade.

Tem sido uma desilusão dolorosa. O obtuso discurso – despreparado, atrapalhado, egoísta, autoritário, ganancioso – dos que tanto já me encantaram na vida, diz assim:

“Quero ter controle total sobre tudo que falam de mim”.

Se isso não é censura, eu não sei o que é.

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