Você “curte” Mestre Gaiarsa?

Do outro lado da linha, a secretária disse:

- Gustavo? Doutor Gaiarsa quer falar com você.

Arrepiei de medo e entusiasmo.

- Alô? Oi, vi que você estava na minha palestra. Eu estava fazendo umas expressões meio ridículas, meio exageradas?

- Estava, mestre.

- Arrã… eu tinha percebido, só queria confirmar…

Talvez tenha começado aí a amizade que mais mudou a minha vida: eu falando para o Mestre que ele havia sido ridículo.

Eu já fora bastante transformado pela leitura de seus livros, pela formação corporal feita com ele e por ter sido um dos secretários de sua clínica. Mas, mesmo assim, com tudo isso, até ali havia existido, quase sempre, certa distância.

Nesse telefonema, algo mudou. Nesse telefonema, era o Mestre – meu mestre – pedindo a minha opinião sobre a palestra dele. A melhor coisa que eu podia fazer para prestar-lhe respeito era dá-la sinceramente. E talvez tenha sido aí que eu o cativei. Ou aí também

Os mestres muito sábios e carismáticos vivem cercados de discípulos que os idolatram. Muitas vezes, perdem a noção de limite, de discordância, de divergência – de diferença – que os induz a rever-se, a ampliar-se. Só concordância produz monotonia.

Mestre Gaiarsa nunca me disse isso claramente, mas estou certo de que o fato de eu expressar para ele minha opinião, às vezes até pretensiosamente meio contrária (raramente, é verdade), era uma das coisas que o agradavam em mim. Eu podia ser, a um só tempo, simpatizante e contraponto.

Em outra ocasião, ele me contava sobre um dos conceitos que exploraria em um livro ainda por publicar, quando eu disse a ele:

- Sei, mestre, você já falou disso naquele outro livro, tal.

No encontro seguinte, ele dispararia, meio bravo, meio cúmplice:

- O senhor detonou em mim uma crise de autoimagem. Quando disse que eu já havia falado daquele mesmo tema, naquele outro livro de anos atrás, eu fiquei me sentindo um velhinho que se repete…

Eu ri – eu só podia rir diante disso – e respondi, de novo sinceramente:

- Mestre, você já falou de outros temas mais de uma vez, em mais de um livro, mas sempre acrescentando algo de novo, ou partindo de outra perspectiva. E essas coisas que você fala nunca é demais repetir, são muito fortes, difíceis de assimilar. Além disso, não dá para pensar que quem vai ler esse próximo livro leu os outros, ou algum outro. Abordar novamente um assunto procede.

Sobre isso, ele então aquietou-se. Vi aceitação em seu rosto. Um quase convencimento. Continuamos o papo em outra direção.

Conto esses fatos não só a pretexto de mostrar minha relação com o Mestre (isso também, que eu sinto orgulho), mas também para demonstrar um ponto de vista sobre um fenômeno antigo, mas de roupa nova: a concordância automática e acrítica, só porque “pega bem”. Essa atitude é abundante nas redes sociais virtuais. A maior de todas tem um botãozinho para ela.

Assim como era difícil que o Mestre aprovasse ou se interessasse por manisfestações de aprovação sistemática, de concordância crônica – porque este tipo de vínculo tende a ser intelectual e emocionalmente limitante – seremos indivíduos melhores se não repercutirmos ou aprovarmos algo de que discordamos, só para ganhar apoio social.

Dito de outro modo, era mais provável que o Mestre se interessasse por – e respeitasse – alguém que expressasse com firmeza sua própria opinião do que quem dela abdicasse por ser socialmente conveniente. Assim como o Mestre, essas pessoas, as corajosas, têm de enfrentar  mais resistências, mas são muitíssimo mais interessantes e valorizam a diversidade da vida, não a manutenção do status quo.

O Mestre era mesmo um mestre. Sabia das coisas. Em sua própria vivência, as ensinava.

Por isso, pense bem: quando você dá “curtir” em algo de que não gosta, só porque quem postou é seu amigo ou porque pega mal não ir na onda, será que não está reproduzindo, e reforçando, na Internet, os mesmos mecanismos de sempre da hipocrisia social?

  1. irene’s avatar

    Gaiarsa distinguia fácil o “puxa saco” e o “ácido gratuito”.

    Responder

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