O segurança

Passou por treinamento, malhava e sabia ser firme quando necessário. Fora treinado para olhar para a frente, para a plateia. Igual aos policiais militares que fazem segurança em clássicos de futebol: têm de ignorar o jogo e vigiar o público.

Conseguia fazer isso, a maior parte do tempo. Perto de 100%. Quando olhava, era para ter uma referência espacial de onde estava a pessoa a ser protegida. Em seu caso, o artista, pois trabalhava numa casa de shows.

Naquele dia, houve uma reunião de trabalho. “Essa artista é diferente”, disse o chefe de segurança. “Ela desce do palco de vez em quando e gosta de se misturar à plateia. Tem hora que é para deixar o público chegar perto do palco”.

Estranhou aquilo, achou muito louco. Sabia que era uma artista internacional, mas nunca tinha ouvido falar dela até que o show foi agendado. Tinha só 25 anos, devia ser porque era criança quando ela fez muito sucesso. Mas a casa ia estar cheia, a lotação já estava quase esgotada. E era para deixar o público chegar perto? Estranhos, esses artistas gringos. Uma exigência mais esquisita que a outra.

Mas obedecia ordens, e foi decidido, como sempre, a cumprir o que lhe disseram. Casa lotada, banda colocada, luzes apagadas, equipe de segurança a postos. A artista entra cantando e a plateia a ovaciona. Como em todos os shows. Normal. O espetáculo rola, o público se empolga, a voltagem sobe. Como em todos os shows. Normal.

De repente, a cantora desce as escadinhas, em direção à plateia. Não é que ela faz isso mesmo? Pela primeira vez, ele a vê frente a seus olhos, pois permenecera na posição protocolar, de costas para ela. Comoção geral. Mobilização da equipe. É preciso deixá-la ir, mas protegê-la dos exageros. Postado perto do palco, seu papel é permanecer lá. Ele fica.

Ela faz isso várias vezes durante o show. Mas não só isso. Em certo momento, chega à beira do palco e estende a mão. As pessoas afluem, como abelhas, desesperadas por um contato. Normalmente, ele faria parte de uma barreira humana, afastando todo mundo, com firmeza. Dessa vez, não. O chefe da equipe faz um sinal e ele sabe o que signfica: deve liberar o acesso do pessoal até o pé do palco.

Pela primeira vez, ele se vê numa situação curiosa: com as costas apoiadas no palco, ainda olhando para as cadeiras, fica envolto por uma turba entusiasmada, mas não enlouquecida. Uma multidão  apaixonada, mas que espera sua diva chegar perto. Sabem que ela vem. Ele olha para lá e para cá, certificando-se de que ninguém tente escalar o palco perto de sua área.

E no varrer de seu olhar ele vê pessoas de todos os naipes e idades, quarentões sedentários e sarados, intelectuais e descolados, gente madura e adolescentes. Começa a ficar intrigado. Nenhum dos shows em que trabalhara havia juntado tantos tipos diferentes.

Quase ao mesmo tempo, começa uma música que ele conhece. Girls Just Want To Have Fun. Ele conhece! Então era dela? Soa familiar ao seu ouvido, até agradável. Um espanto para ele, que sempre gostou quase que só de samba. Mas dessa música ele gosta. Então era dela?

O público o cerca, com as mãos estendidas para a musa. Pelo barulho e agitação ele sabe que ela está vindo para o seu lado do palco, por trás dele. Cabeças se agitam, braços se esticam, cercando-o. Pela primeira vez, ele cede, e vira a cabeça. Não para controlar o público, mas para vê-la de perto. Ele a vê e repara em detalhes, de beleza, de idade. Ele a vê e se surpreende por gostar dela.

A musa se afasta, cruzando para o outro lado. O pessoal em volta dele aguarda, paciente. Ela faz a mesma coisa do lado de lá. Pela segunda vez, ele cede, e olha. Disfarçadamente, vira a cabeça para ver o agito que ela está provocando. Para a própria surpresa, repete o mesmo gesto muitas vezes naquela noite. Não conseguiu deixar de ser contagiado pelo mesmo encanto da plateia.

Fim de show, ele está dispensado. Iria contar em casa e aos amigos que trabalhara no show de Cyndi Lauper. “Cyndi o quê?”, dirão alguns deles. Não importa que não saibam. Ele agora sabe, e a admira. Talvez guarde só para si a maior parte do tempo. Para ele, é o que importa. Ela o fez sentir um entusiasmo e um interesse que nunca antes nele se manifestaram.

O segurança permanecerá segurança, enquanto sua sobrevivência depender disso. É uma profissão digna, como as outras. Além do mais, ele gostava. Mas naquela mesma noite, ainda de madrugada, lembrando de toda emoção por que fora envolvido, sentiu vontade de fazer outra coisa. Uma coisa, talvez, quem sabe, mais… criativa?

Seria viagem na onda do show? Seria pretensão de sua parte? Tantas vezes trabalhara em shows e nunca sentira aquilo. Exatamente por isso, decidiu que era verdade. Exatamente por isso, convenceu-se que era legítimo. E ia empenhar-se para, assim que possível, encontrar outra profissão digna, em que pudesse colocar algo da beleza que dentro dele despertara. Foi dormir feliz, realizado e esperançoso. Seus planos têm grande chance de dar certo.

No hotel, Cyndi relaxa depois de outro show maravilhoso e estafante, em que não só marcara de novo a vida de tantos fãs, mas também mudara a história de um indivíduo. Será que ela sabe?

Sim, ela sabe.

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Essa é uma história de ficção, mas pode ter sido inspirada em fatos reais.

  1. rogério de oliveira’s avatar

    oi! gustavo sim cyndi e diferênte, ela vai aõ público se joga na platéia ela e cyndi lauper diferênciada.

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  2. Renan’s avatar

    Que curioso, no show dela em Recife, teve segurança q cedeu a tetação de olhar para tráz, ou seja, para o palco… Parabéns!

    Responder

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