Meu subjetivo é maior que o seu

A maioria das pessoas (não digo os acadêmicos) aceitam que certas coisas que não podem ser exatamente descritas existem. Coisas, digamos, abstratas, ou de experiência subjetiva.

O amor, ninguém conseguiu definir definitivamente (o pleonasmo é intencional). Pode procurar. Mas você sabe quando está amando.

Assim também a dor. Como dói a sua dor? É ardor? É raspar? É pinicar? É queimar? Às vezes, você não sabe explicar, mas sabe que é dor. Porque dói.

Raiva também. Explique sua raiva. Você vai ver como é difícil. Não por que você está com raiva, mas o que é que você chama de raiva. Você sabe que os outros estão com raiva por analogia com a sua. Dá para ter uma ideia do que eles estão sentindo.

Os acadêmicos mais fanáticos procuram definir essas coisas de modo último, definitivo. Uma definição em que não caiba dúvida, em que não haja contradição. Um desejo de apreender em uma descrição, em palavras objetivas, o que só pode ser experimentado sentindo.

Estão fadados ao fracasso.

Não sei para que serviriam essas definições, por tudo que sei, inalcançáveis. Empenhar-se apaixonadamente em definir coisas sentidas parece que é um simples exercício para tornar o indivíduo um mestre em… definir coisas sentidas.

Nos casos mais graves, em sentir só coisas definidas.

Há pelo menos uma analogia em propaganda. Fala-se, louva-se, vende-se e finge-se procurar e valorizar o talento, a criatividade. Mas não se acredita que eles existam independente de definições. Sim, há definições, mas todas elas são insuficientes.

Você vê dois anúncios e sabe que um foi feito com talento e o outro não. Você vê duas ideias e sabe que uma tem criatividade e a outra não. Mas como ambos os conceitos são difíceis de definir, tudo se passa como se eles não existissem de verdade.

Como cada um percebe a comunicação de seu jeito – própria essência da subjetividade – parece que se torna cabível chamar o comum de talentoso, o tedioso de criativo.

Politicamente, soa bem. Publicitariamente, é péssimo, um dos problemas mais difíceis e traumáticos para quem se dedica a criação. Porque há gente com poder de decisão que simplesmente despreza a experiência e o preparo, formal ou não, do profissional de criação que está sendo contratado – exatamente por possuir esse preparo.

Há gente com poder de decisão que finge não existir o refinamento e a elaboração estética, coisas que não podem ser provadas cientificamente, porque precisam ser vividas para se tornar reais.

E esse, digamos, histórico, faz toda a diferença na forma de perceber as coisas e o mundo. A publicidade também. Ao não aceitar que isso existe, o decisor míope equipara sua percepção à do profissional que, embora “contratado”, é infinitamente mais capaz para dizer coisas com expressividade (e, não se engane, é isso que traz os melhores resultados).

Assim, torna-se fácil e banal trocar uma cor ou uma palavrinha. “Não é visual? Não é texto? Então, eu enxergo e sei escrever…”

A resposta exata, nua e crua, para esse tipo de arrogância está entalada na garganta de muita gente que não a expressa por medo de complicar-se financeiramente. Mas pode-se pensar em alternativas. Algo mais ou menos assim:

- Senhor cliente, vá criar comunicação, a partir do zero, por pelo menos uns 5 anos antes de dizer que o seu gosto é a mesma coisa que a minha visão profissional. Não é, não. Ambos são subjetivos, mas eu tenho talento para a coisa e minha percepção é treinada. Nestes assuntos de publicidade, entre a sua subjetividade e a minha, fico com a minha. Se fosse o senhor, também ficava. Do contrário, o senhor vai perder dinheiro…”

Você teria coragem de dizê-la?

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