Como assim, “qual”?

Há muitos anos ouço essa.

A pessoa vai entrar na avenida, desfilar no maior carnaval do mundo. Ou então já desfilou. Pode ser num trio elétrico. Pode ser qualquer outro momento muito marcante, ou evento monumental. Pode ser a final de uma copa do mundo, de vôlei ou de futebol. Pode ser uma cerimônia do Oscar. Pode ser um Grammy.

O repórter festivo, de sorriso calculado, obrigatório, chega perto da celebridade – ou do anônimo – e faz a pergunta fatídica, quase sempre gritando, por causa da multidão. Pode ser um repórter de qualquer emissora do país. Vários já cometeram a mesma tolice. A pergunta se repete, ano após ano. E continua sem resposta. Peguemos, como exemplo, a avenida:

- Qual é a emoção de desfilar na Sapucaí?”

Qual é a emoção? Como assim? Uma só? Espera-se que se dê um nome para ela? Espera-se que seja uma emoção específica, sacada de um repertório de quantas? Espera-se que se classifique a possível profusão de emoções em alguma espécie de categoria?

Será que a intenção do repórter – todos eles – não seria saber outra coisa? Será que não seria melhor perguntar se a emoção é muito grande, ou como a pessoa está se sentindo? E mesmo aí a resposta é meio óbvia – impressionado, ansioso, entusiasmado, inseguro, frenético, feliz… tudo ao mesmo tempo – mas a questão estaria melhor formulada.

Mas não. Ninguém se dá ao trabalho. Nenhum colega repórter, nenhum diretor jornalístico. Ninguém pensa ou fala, ninguém repara ou orienta, ou manda, fazer a pergunta direito. Por isso as respostas são sempre as mesmas, e juntando todas dá nenhuma. A pergunta é tão mal colocada, e as possibilidades tão amplas, que ninguém consegue responder. Todo mundo desconversa.

Imagine-se você no lugar do desfilante, ou então do premiado, só para mudar de exemplo. Chega um jornalista simpatiquinho e sorridente, você com o Oscar na mão, e ele fuzila, inclemente:

- Qual é a emoção de ganhar um Oscar?”

Possível resposta: a emoção de ganhar um Oscar é a emoção de ganhar um Oscar, ora! Como você quer que eu descreva?

Entre outras, de vitória, evidente… mas é claro que não só isso.

Se é só para marcar presença, mostrar que se está fazendo a cobertura…. se é só para mostrar que se tem acesso aos bastidores, ou às celebridades… se é preciso repetir a lenga-lenga, todo ano, toda festa, todo evento, que tal pensar numa abordagem, senão criativa, pelo menos mais elaborada? Não custa nada, só fosfato, e a “entrada” ia ficar mais interessante.

É uma sugestão simples e sincera, em prol de dois fatores valiosos: a paciência dos entrevistados e boa fama dos repórteres.

Sem falar na inteligência dos espectadores.

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